Profissionais e comunidade discutem direitos humanos
II Mostra de Cinema e Direitos Humanos teve a participação de professores universitários e profissionais especializados nos temas propostos para cada noite Encerrou na sexta-feira, dia 18, a II Mostra de Cinema e Direitos Humanos promovida pelo curso de Direito da Unoesc, Campus Aproximado de Campos Novos. O evento, que foi realizado na Casa da Cultura de Campos […]
Publicado em 21/09/2009
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II Mostra de Cinema e Direitos Humanos teve a participação de professores universitários e profissionais especializados nos temas propostos para cada noite
Encerrou na sexta-feira, dia 18, a II Mostra de Cinema e Direitos Humanos promovida pelo curso de Direito da Unoesc, Campus Aproximado de Campos Novos. O evento, que foi realizado na Casa da Cultura de Campos Novos, teve início na terça-feira e, ao decorrer da semana, abordou diversos assuntos relacionados ao tema proposto.
De acordo com a professora Ana Carolina Lopes Olsen, responsável pela organização da Mostra, aproximadamente 140 pessoas assistiram aos filmes, palestra e debates realizados em cada noite. Esse público era formado por estudantes universitários, professores, profissionais de áreas afins e comunidade em geral.
A avaliação do evento por parte da comissão organizadora é, segundo a professora, muito positiva. “Ele atendeu aos seus objetivos que eram difundir os direitos humanos para a comunidade e públicos acadêmicos em geral, promover uma reflexão crítica sobre o tema, permitir a compreensão do assunto como algo a ser vivido no cotidiano e engajar a população na luta pela efetividade desses direitos”, diz Ana Carolina.
Programação
A palestra de abertura foi com o professor César Augusto Baldi, mestre em Direito pela Universidade Luterana do Brasil (Ulbra) e doutorando em Direitos Humanos pela universidade Pablo de Olavide, da Espanha. Ele tomou por mote o filme “Blade Runner – o caçador de andróides” para analisar as perspectivas de passado, presente e futuro da luta pelos direitos humanos.
A partir da figura do “replicante”, um andróide que se infiltra nas relações humanas e em razão disso precisa ser eliminado, Baldi traçou um paralelo com o processo de colonialismo desencadeado pela civilização ocidental, ainda presente, que discrimina o diferente e impõe-lhe conceitos que aniquilam culturas e crenças originais.
Na noite de quarta-feira, quando houve a apresentação do filme “Terra Vermelha” e um debate sobre direitos humanos e conflitos de civilizações, o professor Antônio Guimarães Brito enfatizou a dificuldade que a civilização ocidental tem de conviver com culturas diferentes, especialmente no que diz respeito ao índio, que tem sido fruto de marginalização na sociedade.
O professor César Baldi destacou diversas passagens do filme e lembrou, assim como o professor Brito, a necessidade de se respeitar a cultura indígena como tal. Ele destacou o processo de colonialismo cultural que se mantém entre civilização dita ocidental e os indígenas, a partir de sua incorporação como força de trabalho, seja na agricultura de exportação, seja no trabalho doméstico.
Na terceira noite de debates, quando o tema foi direitos humanos, liberdades fundamentais e democracia, o professor e deputado Estadual Pedro Uczai aproveitou a mensagem do filme “Zuzu Angel” para destacar a necessidade de se manter uma luta aguerrida na sociedade contra todas as formas de opressão, em defesa das liberdades democráticas. A partir do livro “Brasil: Nunca Mais”, fez uma crítica veemente da prática de tortura – a qual infelizmente ainda se verifica nos dias atuais como herança da ditadura militar. Por fim, solicitou que se mantenha viva a memória daqueles que lutaram contra a ditadura e desapareceram, como é o caso de deputado estadual Paulo Stuart Wright, desaparecido em 5 de setembro de 1973.
O professor Ben Hur de Marco também fez crítica à ditadura e enfatizou a necessidade de se continuar construindo uma democracia justa, o que é papel de todos os cidadãos, mas em especial dos estudantes que tem mais acesso às informações.
Já a professora Ana Carolina Olsen, que também fez parte do debate assim como o professor Bem Hur, contribuiu com uma reflexão a respeito da dificuldade de se identificar lutas justas no mundo de hoje, em que as ideologias estão mitigadas, senão disfarçadas em um discurso comum em prol dos direitos humanos que, segundo ela, de tão abstrato, faz-se vazio.
O encerramento da Mostra, realizado na sexta-feira, teve a presença do juiz do trabalho Etelvino Baron, do procurador do trabalho Guilherme Kirtschig e da professora e advogada Janaína Dias de Deus. Baron comentou o filme apresentado, intitulado “Terra Fria”, e salientou a importância de se promover o acesso aos postos de trabalho sem discriminação. Ele comentou casos de assédio sexual que chegam à Justiça do Trabalho e assinalou a necessidade de se cuidar da produção da prova sempre que se busca uma responsabilização civil daqueles que praticam o assédio sexual no ambiente de trabalho.
O procurador do trabalho fez uma explanação a respeito das diferentes formas de assédio e comentou o assédio moral, também presente no filme, como uma forma de pressão psicológica empregada por superiores ou mesmo por colegas de trabalho a fim de diminuir, oprimir e forçar um trabalhador a pedir demissão. Comentou também a importância das cotas para abrir postos de trabalho para minorias discriminadas ou maiorias silenciosas – aquelas que têm dificuldade em encontrar espaço no ambiente sócio-econômico – e discorreu sobre a fundamentação constitucional da política de ações afirmativas.
Por fim, a professora Janaína assinalou diversos aspectos do filme, enfatizando a importância da evolução jurídica e moral da luta das mulheres contra a violência doméstica, bem como a importância de seu acesso a todos os postos de trabalho, com igualdade de salários em relação aos homens. Observou a dificuldade que muitas vezes os empregados encontram ao se defrontar com a prática de assédio moral ou sexual por grandes empresas, que muitas vezes empregam quase a totalidade da mão de obra de uma comunidade.
Fotografias: Ciro S. Ropke