Acadêmico cego conclui curso de Educação Especial na Unoesc Xanxerê
Em formatura realizada no último sábado (18), formou-se o primeiro acadêmico cego da Unoesc Xanxerê. Na oportunidade, Ricardo Becker Cavalheiro e mais 19 colegas que cursaram Licenciatura em Educação Especial participaram da cerimônia de outorga de grau. Ricardo concluiu Licenciatura em Educação Especial no prazo de quatro anos, o mesmo da duração do curso. A […]
Publicado em 20/10/2014
Por Unoesc
Em formatura realizada no último sábado (18), formou-se o primeiro acadêmico cego da Unoesc Xanxerê. Na oportunidade, Ricardo Becker Cavalheiro e mais 19 colegas que cursaram Licenciatura em Educação Especial participaram da cerimônia de outorga de grau.
Ricardo concluiu Licenciatura em Educação Especial no prazo de quatro anos, o mesmo da duração do curso. A coordenadora do curso, professora Sonia Marta Alberice, afirma que a presença do acadêmico com deficiência qualificou ainda mais o curso.
— Ele sempre se mostrou disposto a enfrentar as adversidades, as dificuldades que as barreiras atitudinais, curriculares e arquitetônicas lhe eram impostas seja pela arquitetura, seja pela inexperiência dos docentes e pela novidade que se apresentava para os novos colegas — observa.
De acordo com a professora, coordenar o curso com um estudante com deficiência visual foi um desafio gratificante.
— Com forte e significativo aprendizado, estímulo para seguir a vida de maneira positiva e otimista. Tive tempo para internalizar que não é possível esconder-se e/ou encontrar desculpas para não enfrentar as dificuldades com serenidade, harmonia e respeito ao próximo — analisa.
Acadêmico sentiu-se bem acolhido
— Inicialmente, fiquei um pouco preocupado, mas, com o passar dos dias, me senti muito bem recebido pela instituição (professores, gestores e funcionários) — analisa o agora licenciado Ricardo, acrescentando que, nesse período de estudos, criaram-se fortes laços de amizades.
Ele agradece aos professores e colegas, pela prestatividade e presença sempre que necessitou de auxílio durante o curso.
— O mais importante para mim, além do contato com esse grupo, foi poder participar de suas vivências, aprendendo com cada um. Sinto que ajudei amigos nesse período e que tirei muitas dúvidas. Acredito que, juntos, vamos contribuir para uma educação mais inclusiva — avalia.
Para Ricardo, na Unoesc, ele foi tratado sem discriminação ou distinção, tendo condições, tanto físicas como materiais, para desenvolver seu conhecimento e alcançar a formação profissional que pretendia. Agora, ele afirma que, após atingir um de seus objetivos profissionais, espera exercer a função de professor da melhor maneira possível, podendo contribuir na vida das pessoas com deficiência visual.
Colegas e professores depõem convivência de aprendizado
Para os colegas de Ricardo, ter estudado e convivido com ele representaram um grande aprendizado, conforme seus depoimentos.
Segundo Rosane Tomasi Pinheiro, foi um conhecimento incomparável o que Ricardo transmitiu, pois as experiências que vivenciaram ajudaram na vida profissional, mostrando de que forma deve-se agir diante dos alunos com deficiência visual.
Para Adriana Ferreira da Cruz da Silva Milioransa, foi possível, com Ricardo, presenciar a realidade de uma pessoa cega na Universidade, suas possibilidades, dificuldades e limites.
— Tenho certeza de que nosso colega nos deu muita força para chegarmos até o fim, principalmente nas aulas de Braille e Sorobã, em que todos nós ficamos tensos com o primeiro contato, mas que, no final, deu tudo certo, sendo que isso também nos fez pensar e refletir sobre nossa prática como educadores — conclui.
Já na opinião da professora Maria Christina Tourinho Ferronato, que ministrou para a turma os componentes de Distúrbios Neurobiológicos e Sexualidade da Pessoa com Deficiência, conviver com Ricardo foi uma experiência muito significativa.
— Porém não deixou também de ser um desafio, pois nos permitiu colocar em prática aquilo que se busca na educação, que é a chamada inclusão. Tenho certeza de que conviver com as pessoas que apresentam algum tipo de deficiência faz-nos dirigir o olhar para nós mesmos, para percebermos as nossas próprias deficiências e, assim, enfrentarmos a trajetória que nos aproxima enquanto seres humanos — ressalta.
E a professora Zelci Lorenzon, responsável pelos componentes de Libras I e II, pontua que Ricardo mostrou ser um guerreiro, pois, mesmo com sua deficiência visual, não deixou de participar de uma disciplina que é única e exclusivamente visual.
— Superou nossas expectativas, pois, através da intérprete, ele conseguiu aprender sinais e usá-los para se comunicar com os surdos. Mostrou que, para ele, barreiras não existem — destaca.
A turma formanda do curso de Licenciatura em Educação Especial fez parte de uma parceria entre a Unoesc Xanxerê e o Governo do Estado de Santa Catarina.